Errado está aquele que pensa que é apenas legal ser chefe. Não creio que seja assim, simples. Ser chefe não é apenas liderar, dar ordens e aguardar (pacientemente) que estas sejam cumpridas, esperar que os resultados caiam na sua mesa, enquanto você bebe calmamente seu café.
Ser orientador, então, é ainda pior. Como a palavra diz, orientador é aquele que deveria orientar, guiar o aspirante a cientista (biólogo ou não) por entre os caminhos da boa ciência, honesta e ética. Ao orientador, cabe mostrar ao pupilo que boas ideias surgem de muita leitura e que bons resultados são filhos do esforço e da dedicação de ambos, orientador e orientado, e não apenas de uma das partes envolvidas. Afinal, como esperar que um aspirante seja brilhante ao ponto de idealizar, realizar, analisar e colocar no papel a sua ciência, tudo sozinho? Ele é apenas um aprendiz. Igualmente, onde ficaria o processo de aprendizado se quem executasse todo o trabalho fosse aquele que tem o conhecimento e que deveria passar este adiante?
Orientador e orientado: uma relação de amor e ódio.
Aos 30 e poucos fui obrigada a rever meus conceitos sobre o que é ser um orientador e que tipo de orientador eu quero ser.
Aos 20 e poucos, na minha pouca experiência, achava que, profissionalmente, ser um bom orientador se resumia a ensinar o caminho: escrever projetos que garantiriam o meu financiamento, analisar os dados, compreender os processos biológicos envolvidos e por fim "vendê-los" de forma a emplacar o artigo em uma boa revista. Pessoalmente, um bom orientador era aquele com quem eu poderia conversar abertamente, sem medo e sem caras feias, sem me perguntar qual era o humor da pessoa naquele dia para então, direcionar as minhas perguntas e pedidos de socorro sem ser escorraçada porta a fora.
Passados alguns anos e outros laboratórios, vejo que a situação é ainda mais complexa do que eu imaginava, vejam só. Além de ensinar e garantir que o aluno aprenda a fazer ciência de qualidade, o orientador tem que garantir que o aluno tenha condições de executar seu projeto, o que significa:
a) um laboratório equipado (reagentes, máquinas, dinheiro para as despesas)
b) alunos dedicados exclusivamente ao projeto (ou seja, que tenham como pagar suas contas)
c) orientador comprometido com o grupo de pesquisa
d) todas as anteriores
Sim, eu não pensava muito sobre de onde vinha o dinheiro que pagava meus reagentes, sobre quantos projetos meu orientador teve que escrever e sobre como administrar os recursos e distribuir igualmente entre projetos distintos. Vida complicada. Sim, talvez eu não pensava muito no quanto eu era privilegiada em ter uma bolsa e viver dela, sendo que parte da responsabilidade por eu usufruir deste privilégio vinha do currículo "gordo" do meu orientador. E por fim, de que adiantaria infraestrutura e dinheiro se na "hora H" meu amado chefe estará de férias em algum lugar paradisíaco ao invés de estar ali para me dar aquela dica amiga antes de enviar o artigo para revisão? Sabias perguntas, que deixam clara a resposta certa.
Ser orientador é uma tarefa complexa e que exige muita visão daquele que a assume. Os alunos confiam em você, dependem de você para utilizar de forma exemplar o dinheiro neles investido. Os alunos precisam do seu comprometimento em garantir um ambiente no qual o trabalho possa fluir sem preocupações do tipo "terei dinheiro/reagentes/máquinas operando normalmente para finalizar meu experimentos?" Ou pior: "terei uma bolsa que pague as minhas contas e me permita terminar meu projeto no tempo previsto?" Ser orientador é exemplo. Ou deveria ser. É com ele que você aprende que ciência é amiga da responsabilidade e que, uma vez assumido, um projeto tem por obrigação que ser finalizado. É um compromisso entre duas pessoas com a ciência e com todos aqueles que pagam para que os laboratórios e as universidades/institutos de pesquisa mantenham suas portas abertas. Então, caros amigos orientadores no presente, passado e futuro, sejamos conscientes: aluno é igual a filho. Uma vez que você assumiu, tem que cuidar. Com carinho.
Oi Ivana! Acabei de ver seu comentário (no Entre Bernardo e Bavária), e ia responder lá, mas acabei clicando e caindo aqui... resolvi responder direto aqui :) Mais alguém que também precisar falar - acredite, não estamos sós... Em algum momento parece que surge essa necessidade, né? Lendo blogs de brasileiras que moram na Alemanha, fui vendo que é um sentimento bem frequente... Acho que ter um blog acaba ajudando a suprir essa falta que sentimos de falar, opinar, tal. E é bom que nos ajuda a conhecer mais gente que vive situações parecidas. :)
ResponderExcluirE então você também é bióloga? Que legal, e eu moro em Nuremberg, acho que nem é tão longe de Regensburg, ou? :) Vou acompanhar seu blog, espero receber sua visita mais vezes lá no meu também!
(e sobre o post, partilho bastante da sua visão, achei ótimo. Minha vida acadêmica é curta ainda, mas minha experiência profissional anterior sempre me fez olhar pra tudo isso, sempre prestei atenção a esse outro lado... não é nada fácil mesmo!)
Um beijo e obrigada pela visita e pelo comentário!
Oi Annie! Desculpa demorar tanto para responder...
ExcluirAdorei seu comentário, estou feliz por não estar sozinha neste universo virtual. Regensburg é super perto de Nuremberg mas apesar de planejar, nunca consegui dar um "pulo" até aí. Dizem q a cidade é muito linda e ainda tem museus super interessantes e um zoológico maravilhoso. Quando eu for, entro em contato. Quem sabe não nos encontramos? Adorei seu blog, compartilhamos muitas impressões sobre essa terra que escolhemos para viver.
Obrigada pela visita por aqui, espero que goste. beijos!